Tradução: Dênio Marx

No dia 25 de agosto, o documentário “Unguarded”, filme que conta a história de sucesso da Metodologia APAC estreou na plataforma de streaming Globoplay.

O filme, gravado no ano de 2019 em APACs mineiras, foi produzido pela cineasta ítalo-americana, Simonetta Wiener, em parceria com a FBAC. Além de entrar no catálogo da Globoplay, o filme já foi selecionado e recebeu premiações em diversos festivais de cinema pelo mundo, como: Venice Shorts 2020, Chicago Indie Film Awards 2020, ARFF Berlim 2020, European Cinematography Awards ECA 2020, Thomas Edison Black Maria Film 2020 e Terlio Millenio 2020.

Para celebrar todas estas conquistas, a equipe da FBAC convidou Simonetta para uma entrevista especial para o nosso site. 

Confira.

Sobre a diretora:

Simonetta D’Italia Wiener é formada em Direito, com a especialidade em Criminologia, também graduada em História da Arte e professora de Cinema no St. Francis College Brooklyn, em Nova Iorque. Além de ser uma importante ativista na causa dos condenados, ela foi uma das fundadoras da AVSI EUA.

Seguindo a linha de trabalhos em prol da justiça social, Simonetta também produziu o documentário “The Awakened Heart”, em 2016, que foi selecionado para o Festival Internacional de Cinema do México.

  • Como você conheceu o trabalho das APACs?

Ouvi falar da APAC pela primeira vez por meio de amigos que participaram do “Meeting de Rimmini”, evento que ocorre anualmente na Itália. No ano de 2015, Valdeci Ferreira, Diretor-geral da FBAC, discursou sobre a APAC, vi um vídeo dessa palestra e fiquei impressionada, ao mesmo tempo em que interessada para saber mais.

Desde 2018 comecei a pesquisar mais e me aprofundar sobre o tema, até mesmo porque eu sempre fui entusiasta do assunto e há 10 anos faço um trabalho de visita e acompanhamento em prisões aqui nos Estados Unidos.

Gisela Solymos, uma grande amiga foi quem me apresentou à FBAC e as pessoas das APACs, e, desde então, mantemos uma estreita relação profissional e de amizade. Pouco tempo depois já estava no Brasil conhecendo de perto o trabalho das APACs.

Cheguei ao Brasil justamente no dia da morte de Mário Ottoboni, o fundador da APAC. Eu fui para conhecer a obra que Deus inspirou a ele e tive a oportunidade de participar do funeral. Ali eu encontrei seus filhos, não só os de sangue, mas os gerados por ele no coração, os que cuidou e recuperou e pessoas de todas as APACs. Dias depois, conheci o Valdeci na FBAC e a sensação que tive ao conhecê-lo era como se estivesse conhecendo Mário, pois eu vi nele o mesmo amor, o amor de um pai que transmite aos filhos sua vocação.

  • Quando você decidiu que essa história deveria ser contada em um filme?

Tenho um amigo que hoje é ex-prisioneiro nos EUA, esteve preso durante 10 anos. Um dia comentei com ele sobre a APAC e ele disse que já tinha ouvido falar também e me incentivou, dizendo que deveria fazer um filme sobre as APACs, ele ajudou no processo de revisão e edição.

  • Como foi o processo de produção e de filmagem? 

A produção durou um ano e foi uma experiência humana incrível. Eu tinha uma ideia do que seria a APAC, mas fui surpreendida quando conheci de perto, o dia a dia.

Sem dúvidas, se não fosse a completa dedicação do Denio Marxs, colaborador da FBAC, que ficou totalmente disponível e nos escutou e compreendeu o que precisávamos, com paciência e sensibilidade, fazendo também o trabalho de tradução e coordenando tudo, não conseguiríamos fazê-lo.

Além disso, fiquei muito impressionada com a forma com que fui acolhida pelo Fuzatto, presidente da APAC de São João Del Rei, e mais ainda pela forma como ele se dedica aos recuperandos, ao trabalho, é uma relação que parece de pai e filho.

Com esse documentário, eu queria contar duas grandes coisas: buscava contar a história de vida de uma pessoa dentro e fora da prisão. Então, encontrei o Bruno, que conheceu a esposa na prisão, e, na segunda vez que voltei ao Brasil para dar continuidade nas filmagens, eu o encontrei fora, com sua família, trabalhando, etc. Ao mesmo tempo, encontrei a Luzia, que teve uma história muito triste e dura, mas quando voltei e a procurei soube que tinha se suicidado.

A APAC não é perfeita, é uma proposta para que as pessoas possam mudar de vida e fazer novas escolhas. 

  • Como tem sido a repercussão do filme? 

Recentemente estamos trabalhando em duas coisas importantes. A primeira é uma turnê do filme por universidades nos Estados Unidos, em que o filme será exibido para alunos, professores, mestres, etc. Temos outras palestras agendadas, como a Universidade de Notre Dame, em 27 e 28 de outubro, também no dia 7 de outubro, na Universidade de Chicago Loyola e estamos em tratativa com a Universidade de Georgetown em Washington DC.

A segunda é também uma turnê, mas pelas prisões. Já fizemos uma primeira exibição na Lafourche Parish Sheriff’s Office – na Louisiana, e, depois disso, várias outras também requisitaram.

Fizemos a tradução do filme para o espanhol e aproveitamos o convite de uma universidade na Espanha para exibi-lo. 

A ideia não é só exibir o filme, mas também acender o debate, mostrar que é possível fazer diferente, tanto que, após as exibições, há momentos para perguntas, intercâmbio de experiências, etc.

A repercussão tem sido muito positiva, mas ainda é cedo para dizer qual a impressão das pessoas de fora, porque as que viram o filme até agora, em sua grande maioria, estão dentro do sistema ou de alguma forma envolvidas no mundo prisional e sempre perguntam: “Será mesmo possível isso?”, “Será possível fazer isso aqui?”.

Se você me fizer essa pergunta daqui a três meses, com certeza vou poder te dizer.

  • Tem alguma história ou depoimento interessante sobre a produção ou repercussão do filme?

Nossa, tem muitas, como a da Michele e do Bruno. Eu gostei muito de uma coisa que o Bruno disse: “Quando sair, eu quero retribuir para a sociedade o bem que recebi aqui”.

  • Qual a importância da disponibilidade do filme na plataforma Globoplay?

Bom, a fase de distribuição de um filme é mais complicada e cansativa do que a própria produção, são muitos problemas legais e financeiros, muita burocracia. É uma grande vitória que a Globo tenha mostrado interesse e adquirido nosso filme. Aqui nos Estados Unidos o filme também também está disponível em uma importante plataforma, mas o mais importante e gratificante é que o filme seja visto.

  • E o que você tira de mais importante dessa experiência?

Desde pequena, sempre tive curiosidade de saber o que transforma uma mente sã em uma mente criminosa e de onde vem o mal, e, com essas perguntas, depois de toda a experiência que coleciono, compreendi que a misericórdia e o perdão prevalecem sobre qualquer outra coisa.

  • Você gostaria de deixar uma mensagem final?

Sim. Existe uma força neste mundo que pode promover a mudança, ela se chama amor. E, principalmente, o erro não define uma pessoa, mas o erro pode ser o início de uma transformação, para a pessoa e para a vítima.

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